sexta-feira, 8 de abril de 2011

Seguindo a menina da manutenção

Não foi uma nem duas vezes que eu, Monique, ouvi críticas, deboches, piadinhas e até mesmo fui humilhada por correr atrás dos meus sonhos e fazer o que realmente gosto. Preconceito é a palavra mais apropriada pra descrever o que sofri por prestar uma prova de seleção e ser classificada pra fazer um curso. Na verdade pra mim não era apenas um curso, e sim uma realização, uma conquista que foi apedrejada e que desde o início não teve apoio das pessoas que me viam entrar pelas portas da escola técnica e me matricular no curso técnico de Mecânica.

- O quê? Menina mexendo com máquinas, parafusos, porcas, ferramentas e sujando a mão de graxa? Que nojo! E além de nojento é ridículo esse tipo de trabalho pra uma mulher! Isso é serviço de homem!

Palavras cruéis como essas eram proferidas a meu respeito com freqüência. Eram como bofetadas em meu rosto. Feriam minha alma e meus sentimentos, porém a vontade de vencer, de alcançar o alvo, de tornar real o meu sonho era muito maior e, sem dúvida, a convicção que eu tinha de que estava no caminho certo era um excelente motivo pra que eu tivesse forças suficientes para prosseguir.

E esse problema não era única e exclusivamente meu. Todas as outras meninas do curso eram descriminadas por fazerem parte de um curso classificado como “curso pra rapazes”. Como se as mulheres não tivessem capacidade de efetuar um serviço de qualidade e apenas os homens o fizessem, o que em boa parte dos casos acontece justamente o contrário, visto que as mulheres, geralmente, são mais minuciosas do que os homens e conseguem dedicar maior atenção a uma determinada atividade.

Mas o fato é: qual é o fundamento pra tal conceito (errôneo) de que mulheres não podem trabalhar na área metal-mecânica e que somente homens teriam capacidade para trabalhar? Está escrito no artigo 113, inciso 1 da Constituição Federal que: “todos são iguais perante a lei”. Na teoria e lei funciona, mas na prática a coisa não é bem assim.

Já vem de muito tempo o preconceito quanto à colocação da mulher no mercado de trabalho. Por volta do século XVII, quem era responsável por prover o alimento e a segurança da família eram os homens, enquanto as mulheres deviam cumprir suas responsabilidades com os afazeres domésticos. Com o estouro das Grandes Guerras Mundiais as mulheres tiveram que, entretanto, ser inseridas no mercado de trabalho, assumindo o papel que, na época, cabia ao homem, de trazer o sustento aos filhos enquanto os homens eram enviados aos campos de batalha para lutar por seus países.


Após o término da guerra terminavam-se também a vida de muitos combatentes, o que impunha à mulher uma dupla jornada de trabalho dividida entre cuidar da casa e dos filhos e trabalhar fora para obter o mantimento.

Mecânica é a minha vida! Qual é o problema em eu querer fazer o que gosto e viver minha vida da maneira mais agradável possível? Mecânica é o movimento. Está em toda parte! Por onde olho vejo a Mecânica de forma explícita ou implícita.

No que diz respeito à receptividade do mercado de trabalho com relação a nós, mulheres mecânicas, guerreiras e batalhadoras, que matamos um leão por dia, podemos observar claramente um preconceito enorme. Estamos em um “campeonato masculino”¹, onde disputamos uma vaga com vários homens, que na maioria das vezes têm a preferência.


Na terça-feira passada minha turma teve prova da disciplina de Tecnologia Mecânica dos materiais e ontem recebemos o resultado. Minha nota foi a segunda maior nota da sala e meu desempenho nas aulas práticas foi superior ao da maioria dos meninos da minha classe, visto que a turma possui 32 alunos, dentre os quais há apenas duas meninas.

Sinceramente, sinto-me orgulhosa da escolha que fiz e não me arrependo. Não estou aqui reclamando da minha opção, estou sim reivindicando o direito à igualdade de gênero, desrespeitada pela sociedade e que agora, no auge dos meus 17 anos, tem me atacado diretamente, fazendo-me refletir sobre o verdadeiro e fundamental papel da mulher no meio em que vive.

Ah, antes que eu esqueça, a minha colega a quem chamo carinhosamente de Fabi, está comigo nessa peleja e também está revoltada com a opressão que a mulher técnica em mecânica tem tolerado até agora. Está mais do que na hora de dar um basta nisso.

É, acho que consegui falar tudo o que estava entalado em minha garganta, e que me angustiava já de longa data. Sinto como se milhares de quilos fossem desprendidos das minhas costas, mas esse alívio pode se tornar ainda maior se cada pessoa que tiver acesso a essa carta fizer a sua parte. E começar (ou continuar) a respeitar as mulheres técnicas em mecânicas, bem como todas as mulheres batalhadoras que dão seus rostos à tapa pra conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho é o primeiro passo.



Pois é! Como ninguém é bobo de ninguém, vou aproveitar que essa carta vai circular por todo o país, começando do Rio Grande do Sul e daí por diante pra vender meu peixe né??!!


Faço qualquer serviço de torneamento, fresamento, acabamento de peças metálicas, tratamentos térmicos pra melhorar propriedades das ligas Ferro-Carbono e programação de CNC. Quanto mais engraxado for o serviço, melhor é pra mim. Sou determinada, competente, perfeccionista e sem-frescura, pra você que é um consumidor exigente e quer a melhor qualidade em suas máquinas, ferramentas e peças.

Meu numero é 555-55 55. Como sou uma mulher muito versátil e moderna, você pode fazer contato comigo através do orkut, MSN, Gazzag, Facebook... É só lançar no Google. E não esquece de me seguir no Twitter: A menina da manutenção.

3 comentários:

  1. O final foi ótimo, texto muito bem escrito!
    Parabéns, muito legal mesmo!!!

    Fernando Kieling

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  2. Muito legal, gostei!

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